Bem-vindo ao site Compromisso 1%

Filantropia corporativa: da intenção ao compromisso de longo prazo


por Aron Zylberman, Diretor Executivo do Instituto Cyrela e Luciana Kamimura, Gerente  Executiva do Instituto Cury

A filantropia corporativa está passando por uma transformação relevante. Em diferentes partes do mundo, empresas revisitam suas prioridades, seus modelos de governança e a forma como estruturam seus investimentos sociais. Mais do que uma resposta a pressões externas ou expectativas reputacionais, essa mudança reflete uma questão mais profunda: qual deve ser o papel das empresas na construção de uma sociedade mais próspera, inclusiva e sustentável?

Durante muito tempo, a filantropia empresarial foi vista como uma atividade complementar ao negócio. Algo desejável, mas não necessariamente integrado às decisões estratégicas da organização. Essa visão vem mudando.

No Brasil, os dados do relatório BISC – Reflexões e Tendências do Investimento Social Corporativo 2026 ajudam a compreender essa evolução. O estudo mostra que a aproximação com as comunidades é percebida por 90% das empresas como um dos principais resultados de suas iniciativas sociais. Além disso, 60% destacam o fortalecimento da reputação institucional e a melhoria do relacionamento com diferentes públicos de interesse.

Esses números revelam algo importante: as organizações começam a compreender que impacto social e geração de valor não são objetivos concorrentes. Pelo contrário. Em um ambiente cada vez mais complexo, a capacidade de contribuir para o desenvolvimento dos territórios onde atuam passa a ser também um fator de sustentabilidade do próprio negócio.

Ao mesmo tempo, o cenário global traz novos desafios. Nos Estados Unidos, mudanças recentes na legislação tributária reduziram incentivos para determinados modelos de doação corporativa. Em diversos mercados cresce a exigência por maior transparência, mensuração de resultados e coerência entre discurso e prática.

Esse movimento tem levado algumas empresas a revisarem seus portfólios de investimento social, concentrando recursos em iniciativas mais estruturadas e alinhadas às suas competências institucionais. Há quem interprete esse processo como uma retração da filantropia corporativa. Talvez seja mais adequado enxergá-lo como um sinal de amadurecimento.

Maturidade significa reconhecer que o impacto social consistente exige intencionalidade, governança e visão de longo prazo. Exige também compreender que recursos financeiros, embora fundamentais, são apenas parte da equação. Conhecimento, capacidade de mobilização, influência institucional e articulação entre diferentes atores são ativos igualmente valiosos.

Nesse contexto, iniciativas como o Compromisso 1%, liderado pelo IDIS e pelo Instituto MOL, ganham relevância especial. Ao estimular empresas a destinarem pelo menos 1% de seu lucro líquido anual para causas de interesse público, o movimento contribui para consolidar uma cultura de doação baseada em compromisso permanente, e não apenas em respostas circunstanciais a crises ou demandas reputacionais.

Desenvolvendo os territórios a partir da escuta ativa

Nesse contexto, é importante frisar que investir socialmente pressupõe reconhecer que as soluções não são construídas apenas dentro das empresas. As organizações que já atuam nos territórios acumulam conhecimento sobre as dinâmicas locais, estabelecem relações de confiança com as comunidades e desenvolvem respostas adaptadas às suas realidades. Por isso, uma atuação efetiva depende de processos genuínos de escuta, capazes de reconhecer esses saberes locais e construir agendas compartilhadas, substituindo uma lógica de imposição por uma relação de parceria.

Quando falamos sobre a necessidade de amadurecimento do negócio social, ele também precisa alcançar as organizações da sociedade civil que atuam nos territórios e que, diariamente, respondem a demandas que muitas vezes ainda não são plenamente atendidas pelas políticas públicas. Fortalecer sua governança, transparência e capacidade de gestão é parte essencial da construção de um ecossistema mais preparado para receber investimentos de longo prazo e ampliar seu impacto social, respondendo às exigências de compliance apresentadas pelas empresas investidoras.

O compromisso permanente com o investimento social, apresentado por instituições signatárias do Compromisso 1%, também amplia as possibilidades de planejamento das organizações apoiadas. Um dos desafios recorrentes do Terceiro Setor é a dificuldade de estruturar iniciativas com horizonte de médio e longo prazo, condição indispensável para consolidar resultados consistentes. A previsibilidade dos recursos permite fortalecer equipes, aprimorar processos de gestão e desenvolver intervenções mais duradouras, substituindo respostas pontuais por estratégias capazes de produzir mudanças sustentáveis.

Um novo olhar para a filantropia

A sociedade também alterou suas expectativas. Consumidores, investidores, colaboradores e comunidades observam não apenas quanto as empresas investem, mas principalmente como investem. Avaliam a coerência entre propósito e prática, a consistência das iniciativas e a capacidade de gerar transformações reais.

Questões como mudanças climáticas, redução das desigualdades, inclusão produtiva, educação de qualidade e fortalecimento da sociedade civil demandam abordagens sistêmicas. Nenhuma organização, por maior que seja, conseguirá enfrentá-las isoladamente.

Essa atuação colaborativa exige, igualmente, o alinhamento entre os objetivos das empresas e as necessidades efetivamente identificadas nos territórios. Embora o ambiente corporativo opere sob diferentes métricas e ritmos, iniciativas voltadas ao desenvolvimento social demandam tempo para construir vínculos, fortalecer capacidades locais e produzir resultados duradouros. Encontrar esse equilíbrio é um dos principais desafios, além de ser uma das maiores oportunidades, para o amadurecimento do investimento social privado.

Por isso, o futuro da filantropia corporativa parece estar menos associado a ações pontuais e mais ligado à construção de alianças, ao fortalecimento de ecossistemas e ao compartilhamento de responsabilidades entre setor privado, poder público e organizações da sociedade civil.

Quando propósito, governança e impacto caminham juntos, a filantropia deixa de ocupar uma posição periférica e passa a integrar uma visão mais ampla de desenvolvimento. O debate, portanto, não é sobre o fim da filantropia corporativa. É sobre sua evolução.

E talvez o verdadeiro indicador de maturidade esteja justamente na compreensão de que transformações duradouras não são resultado apenas do volume de recursos investidos, mas da capacidade de manter compromissos ao longo do tempo, construir confiança e contribuir, de forma consistente, para o desenvolvimento da sociedade.

Translate »